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4/14/2008 .O interior da minha boca é feito do que me envolve e tem sabor a ferro. Lá dentro estão todo o universo dos meus desejos de mão dada com o que temo. Tenho pêlos nas nuvens do céu da boca e Outono com açucar baunilhado debaixo da lingua, enquanto me escorre agua ferrugenta pela garganta. Os meus dedos são àrvores numa planicie alentejana, inertes e solitários. Sentem o pousar dos pássaros e imóveis aconchegam-lhes o ninho com inveja. São pesados, carregados pelas chuvas intensas de inverno. São madeira verde a apodrecer dia após dia ao relento. Ao acordar são os meus olhos, duas ostras perdidas num oceano de duvidas e sal. São um fim de tarde quente de agosto. Ao anoitecer é o olfacto de uma cidade cosmopolita. O cheiro a alcatrão e suor, e humidade primaveril. Em todo o tempo é o limite entre o silêncio e o ruído. É o meu silêncio por oposição ao ruído do movimento desse mundo que vive aqui ao lado. É o meu ruído existencial interior, que vive incessante e ansioso face ao silêncio do universo. Em todo o lado, a toda a hora, são esses extremos a confundir-se, e depois é o coração. Esse orgão de todos os sentidos que carrega consigo todas as estações do ano e todas as outras mais que só ele conhece. É todos os sentidos de antenas no ar, é um coração com pêlos e todas as fases da lua. É o orvalho da manhã numa chapa queimada pelas marcas que lhe deram vida. É o frio e o quente, o vento e o silêncio, a cidade e o sabor a cappuccino italiano, de mãos dadas a deslumbrar constelações de sensações. |
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